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A bem-sucedida estratégia militar por trás dos atletas na Rio 2016

Reprodução/Agência Brasil

A três medalhas de ultrapassar as 17 conquistadas nos jogos Olímpicos de 2012, em Londres, uma outra contagem já superou o rendimento do Brasil na última Olimpíada: os 145 membros das Forças Armadas do Brasil estão em número quase 3 vezes maior nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Se os 51 atletas militares em Londres conseguiram 5 medalhas, no Rio, já somam 11 das 15 já obtidas pelo Brasil. Esse desempenho está sendo observado agora no pódio, mas o planejamento começou bem antes.

Observado quase que diariamente nessas Olimpíadas, o sucesso dos atletas militares vem sendo construído ao longo dos últimos oito anos. Em sintonia com o planejamento do país no cenário esportivo de alto rendimento, os ministérios da Defesa e do Esporte uniram esforços e criaram o Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), em 2008, no governo Lula.

Mas na verdade, esse programa foi uma visão das Forças Armadas após o fraco desempenho do Brasil nos Jogos Militares Mundiais, em 2007, quando o país ficou em 27º lugar no quadro geral de medalhas. “Em 2007, ficamos em 27º lugar nos Jogos Mundiais Militares. Íamos sediar a edição seguinte, em 2011, e éramos candidatos a receber os Jogos Olímpicos de 2016”, explicou o major-brigadeiro do ar, Carlos Augusto Amaral Oliveira, então diretor do Departamento de Desporto Militar do Ministério da Defesa. “Então, pensamos: como podemos melhorar nosso desempenho? Avaliamos e percebemos que em 2008, nos Jogos Olímpicos de Pequim, oito dos dez primeiros colocados no ranking de medalhas tinham um programa esportivo em conjunto com as Forças Armadas”, disse à revista Diálogo Américas.

Para garantir uma delegação competitiva já na 5ª edição dos Jogos Mundiais Militares, em 2011, no Rio de Janeiro, a Marinha e o Exército incorporaram em seus quadros os atletas do Time Brasil. O resultado foi a retumbante conquista do primeiro lugar no quadro de medalhas, com 114 medalhas dentre os 111 países participantes, distribuídas em 45 de ouro, 33 de prata e 36 de bronze. Depois, em outubro de 2015, o Brasil ficou em segundo lugar na contagem de medalhas nos Jogos Mundiais Militares da Coreia do Sul, com 84 medalhas – 34 de ouro, 26 de prata e 24 de bronze.

De acordo com o Ministério, atualmente, 670 militares fazem parte do programa, sendo que 76 são militares de carreira e outros 594 temporários. “Nós hoje já somos potência militar desportiva. O Brasil divide com a China e a Rússia o lugar mais alto dos países de elevado nível no desporto militar”, disse o major-brigadeiro, que em abril desse ano, foi substituído pelo almirante Paulo Zuccaro na função.

INVESTIMENTO
Para criar essa infra-estrutura de apoio e desenvolvimento em todo o Brasil, o Ministério do Esporte investiu R$ 12,6 bilhões no esporte de rendimento, entre confederações olímpicas e paraolímpicas, entre 2010 e 2016. Entre valores já executados entre 2010 e 2014, foram R$ 7,6 bilhões, de acordo com o relatório de auditoria publicado pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Somente neste ano, o programa já investiu R$ 43 milhões, segundo informações da Folha.

E o investimento deu resultado. O diretor afirmou que o número de militares nos Jogos de 2016 foi além da expectativa. “Tínhamos que ter colocado 100 atletas na delegação e ultrapassamos em 45% esta meta, que já era ambiciosa. Estamos muito felizes e é um indicador claro do sucesso do nosso programa. É a qualidade deste programa que permitiu o crescimento tão importante assim”, disse.

Ágatha e Bárbara, ficaram com a prata. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Ágatha e Bárbara, ficaram com a prata. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Os atletas que fazem parte do PAAR recebem a remuneração mensal em torno de R$3,2 mil, de acordo com a patente, na maioria dos casos, de terceiro sargento. “Eles também podem ter outras fontes de recursos, por exemplo, muitos deles também recebem a bolsa atleta e não há nenhum inconveniente nisso. Outros têm patrocínios de empresas e estas coisas compõem o total da remuneração deles. Não há nenhuma proibição de que tenham outras fontes de renda”, informou Paulo Zuccaro.

ESTRUTURA
Para o Almirante, o crescimento no número de atletas foi resultado também da parceria entre os ministérios da Defesa e do Esporte, que investe nas instalações esportivas. “Isso também é determinante para o sucesso do programa”. Além da ação que beneficia diretamente os atletas militares, o Ministério do Esporte investe R$ 146,1 milhões na construção, reforma e adaptações de unidades militares no Rio de Janeiro. As instalações servirão de locais de treinamento para a delegação nacional e as estrangeiras durante dos Jogos Rio 2016.

O militar acrescenta que, além deste salário, os atletas podem contar com nutricionistas, fisioterapeutas, médicos, dentistas e técnicos das Forças Armadas para prestar apoio. Para o Zaccaro, mais do que a questão salarial, é importante a infraestrutura à disposição nas unidades das Forças Armadas. “Temos uma retaguarda em apoio, com serviço de assistência médica muito bom, das três Forças Armadas, e as instalações esportivas são excelentes. Temos apoio de fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogo. Toda parte de ciência do esporte está disponível para esses atletas”, afirmou. “Não é apenas a questão salarial, mas tudo mais que a gente pode fazer por esses grandes brasileiros, por esses atletas que estão dando essa contribuição para o esforço olímpico nacional”, afirma o diretor.

CONTINUIDADE
Apesar de todo o trabalho desde 2008 culminar na Rio 2016, o projeto não acabará com o fim dos Jogos, em 21 de agosto. “A gente não quer a sensação de que o assunto acaba na Olimpíada do Rio. O Ministério da Defesa já tem pronto um planejamento para o ciclo de 2016 a 2020, pensando nos Jogos Mundiais Militares de 2019 e nos Jogos Olímpicos de 2020. O programa, pelo Ministério da Defesa, não morre”, disse o diretor do Departamento de Desporto Militar.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann garante apoio para atletas militares. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O ministro da Defesa, Raul Jungmann garante apoio para atletas militares. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

De fato, a continuidade do PAAR foi anunciada pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann. Para 2017, disse ele, a iniciativa terá assegurados cerca de R$ 18 milhões. “Nós já estamos olhando os próximos oito anos, ou seja, duas Olimpíadas à frente. E, para que esse rendimento dos atletas egressos do programa possa continuar contribuindo para o desporto e para o desempenho do Brasil, é fundamental que esse programa continue”, afirmou o ministro da Defesa.

PARAOLIMPÍADAS DE FORA
Entretanto, o Almirante Zaccaro afirmou que não existem atletas para competir nos Jogos Paralímpicos. Segundo ele, as Forças Armadas estão começando um programa para militares com deficiência física adquirida e este pode ser o caminho para no futuro ter atletas paralímpicos entre os militares. “É um projeto que está muito no seu início. Hoje tem como componente principal a questão social, mas se o projeto prosperar, e a gente conseguir descobrir talentos neste projeto, certamente ofereceremos ao desporto paralímpico”, acrescentou.

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