Política

Dilma se defende no Senado, com Chico Buarque e Lula

Marcelo Camargo/Agência Brasil

A presidente afastada Dilma Rousseff fez seu pronunciamento nesta segunda-feira (29), no quarto dia de julgamento do processo de impeachment no Senado, que será dedicado a ouvi-la. Acompanhada no carro pelo cantor Chico Buarque, ela chegou ao Congresso por volta de 9h e foi recebida com flores por parlamentares contrários ao impeachment. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também acompanha a petista, que começou seu discurso de defesa citando a Constituição de 1988 e afirmando que “jamais atentaria contra o que acredito ou praticaria atos contrários aos interesses dos que me elegeram.”

“Como todos, tenho defeitos. Mas entre os meus defeitos não estão a deslealdade e a covardia. Não traio os compromissos que assumo”, disse Dilma, que também lembrou o fato de ter sido torturada durante a Ditadura Militar. “Não luto pelo meu mandato por vaidade ou apego ao poder, luto pela democracia e pelo bem estar do povo.”

A presidente afastada mencionou governos que sofreram forte oposição como o de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart e classificou como “golpe” o processo de impeachment contra ela, afirmando ser um “pretexto” para derrubar um governo legítimo. “O governo de uma mulher que ousou ganhar duas eleições presidenciais. São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição”, afirmou.

A petista também disse estar sentindo “um gosto amargo” na boca diante das acusações que estão sendo feitas contra elas no processo do impeachment e afirmou: “Não esperem de mim o obsequioso silêncio dos covardes.”

Dilma reforçou que “não cometeu nenhum crime de responsabilidade” e que a perda do apoio parlamentar não seria suficiente para justificar seu afastamento.
“As provas deixam claro que as acusações contra mim dirigidas não passam de pretextos, embasados por frágil retórica jurídica”, disse Dilma. “Quem afasta o presidente pelo ‘conjunto da obra’ é o povo, nas eleições.”

Rousseff citou o resultado da eleição de 2014 como um “rude golpe” em setores das elites conservadoras, que desde então estariam tentando “tirá-la do poder”. “Tudo fizeram contra o meu governo”, afirmou. “Contrariei interesses. Por isso, paguei e pago um elevado preço pessoal pela postura que tive. Arquitetaram minha destituição, independentemente da existência de fatos que pudessem justificá-la perante a nossa Constituição.”

A petista fez menção ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, alegando que o processo de impeachment contra ela foi aberto por “chantagem explícita”. “Articularam e viabilizaram a perda da maioria parlamentar. Estamos a um passo de uma grave ruptura institucional. Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado.”

Durante sua defesa, questionou os crimes sobre os quais estaria sendo acusada. “Quais são os crimes hediondos pratiquei?”, perguntou, afirmando em seguida que a edição dos decretos de créditos suplementares assinados por elas seguiram as regras constitucionais. “Querem me condenar por decretos que atendiam as demandas da população?”, disse, reforçando que o Tribunal de Contas da União já havia aprovado contas de outros presidentes que editaram decretos iguais, sem ter identificado qualquer irregularidade.

Já na parte final do discurso, a petista disse que ficou magoada com as “agressões verbais e com a violência do preconceito” que sofreu durante o processo de impeachment, mas que conseguiu superar tudo isso com “o apoio e a disposição de luta de milhões de brasileiros na rua”. A presidente afastada mencionou principalmente a força que recebeu das mulheres. “As mulheres brasileiras foram parceiras incansáveis de uma batalha em que a misoginia e o preconceito mostraram suas garras. Bravas mulheres brasileiras que tenho a honra e o dever de representar como primeira mulher Presidente da República. Diálogo, participação e voto direto são as melhores armas que temos para preservar a democracia. Confio que as senhoras e senhores senadores farão justiça.”

Ao finalizar a defesa, Dilma pediu aos senadores que considerassem o “precedente” que poderia ser aberto com “a condenação de um inocente”. “Sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. Faço um apelo final a todos os senadores: não aceitem um golpe que, em vez de solucionar, agravará a crise brasileira.”
Após 45 minutos de fala, a presidente afastada encerrou seu discurso ao som de aplausos e gritos no Senado. Logo em seguida, o pesidente do STF, Ricardo Lewandowski, suspendeu a sessão.

Agora terão início os questionamentos dos senadores – 47 dos 81 já se inscreveram. O tempo de resposta de Dilma é livre e não será permitida réplica e tréplica. Dilma pode optar ainda por deixar de responder às indagações dos parlamentares. A expectativa é que o depoimento dure o dia todo e se estenda até parte da noite. A votação final que definirá o impeachment deverá acontecer na terça ou na quarta-feira desta semana.

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